Blog de ZéSarmento


O Seqüestro do Negativo Exposto
José Marques Sarmento

Sexto drama policial do autor, este enredo parte da história de produtoras de cinema que, em meio ao grande furor econômico no mercado publicitário, se vêem envolvidas em um crime incomum. O romancista revela um lado diferente de profissionais que detêm o poder da imagem, contado através de seus inusitados movimentos semânticos e aventuras lingüísticas que sempre surpreendem o leitor.



Escrito por zesarmento às 16h21
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Mulher grávida e amantes são flagrados pelo marido.Uma cena corriqueia, mas de desdobramentos imprecindíveis, que vão tornar a vida de Jorjão da Silva uma aventura de vida e morte.Ambientado em Paraisópolis, a história é muito mais que uma ficção,é um amplo e bem documentado panorama de uma das maiores favelas de São Paulo.O autor mistura suspense, violência e sexo a uma cuidadosa contextualização histórica, em que o cotidiano de sonhos e tragédias é dissecado de maneira realista, pelo ponto de vista de quem de fato vive o problema que relata.Penetrando no reino das surrealidades existenciais e sonhando os limites do homem, dividido entre o mundo colorido da tv e as duras cores da realidade, a liteatura de José Marques Sarmento, é uma das conquistas da pós-modernidade barroca e romântica, funde estilos e tendêcias:é engajada, cinematográfica e poética, além de popular.O final inesperado intencifica a emoção da leitura, ao mesmo tempo em que convida a uma reflexão sobre os mundos em que vivemos.É assim que Paraisópolis documenta uma ficção que invade e esfuma os contornos da realidade, ao narrar as opções de vida de homens destinados por inquietações sociais, mas que preservam a alegria e a vontade de viver.
Rogério de Almeida, poeta e escritor.

Quem quiser ler em Sarmento profundeza semântica talvez não fique plenamente satisfeito. Agora, fique à vontade quem quiser ler nele as particularidades de uma leitura popular, rica, dinâmica, desesperada e verdadeira.

Marcelo Rubens Paiva

Folha de São Paulo, 4 de dezembro de 2000.



Escrito por zesarmento às 16h13
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Urbanóides é o quarto livro do autor. Um livro que traça o perfil fiel da violência de São Paulo, visto e sentido por um homem comum, motorista de ônibus que circula diariamente pelas ruas.

Se deparando sempre com violências banais, outras muito sérias, Chico das Dores se deixa angustiar no vai-e-vem das mãos e pés na sua labuta diária.

O medo tomou conta de todos levando ao limite extremo:

Morte, Estupro, Assalto, Seqüestro, Chacina.

Os Urbanóides andam a mil sem ver limites para as suas maldades.

Assim Chico das Does filosofa. Nós precisamos da liberdade dos sonhos para sair da realidade dos fatos.



Escrito por zesarmento às 15h52
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crítica

A vida do escritor dá força as suas palavras

Tomara que isso seja literatua, diz José Marques Sarmento, apontando-me o exemplar de seu mais recente lançamento, o romance "Urbanóides, um Caos Paulistano".
Será que isso é literatua?É a pergunta que muitos escritores fazem, depois de enfiarem um ponto final num romance.
Quando um cítico mal-intencionado quer desdenhar a obra de um escritor, diz:"Isso não é literatua".Já fizeram comigo.Já aconteceu com muitos.
Outros críticos esperam que cada obra acrescentem elementos inovadores ao gênero.Um crítico certa vez, ao analizar um livro meu, escreveu algo como,"é bom, mas não tem novidades", como se fosse minha intenção querer inovar algo.
Qualquer sequencia de palavas ordenadas de tal forma que deem sentido a uma história é literatua, "a arte de compor e escreve", "na definição do dicionário Aurélio".
É evidente que o mais novo romance de Sarmento é liteatua.E é bom?
Bem, aí são outos cascabulhos.Bom para quem ou para que, Mané?
Paulo Coelho é bom para muitas pessoas.Guimaães Rosa é bom para os ouvidos, os olhos e o coração, mas tem gente que o detesta.
Não se pode ler coelho esperando um gande jogo semântico.Não se pode ler Guimarães esperando uma degustação distraída.Coelho se ler numa fila de espera.Guimarães se ler em casa, em silêncio, concentrado.
Quem quiser ler em Sarmento profundeza semântica talvez não fique plenamente satisfeito.Agora fique a vontade quem quiser ler nele as particularidades de uma literatura popular, rica, dinâmica, desesperada e verdadeira.
Contrariando os caminhos traçados por alguns escritores que escrevem sobre o que não conhecem e se atrapalham com pesquisas (já aconteceu comigo),Sarmento vive aquilo que está em seus livros.
A indignação de um motorista de ônibus que, mais que ninguém,é testemunha do caos humano,é complemento da indignação do autor, o que dá força as palavas.
O narrador tromba com tipos urbanos, sente saudades da sua terra natal e lamenta que muitos passageiros"...cheguem cheios de sonhos e acabem tropeçando nos próprios pesadelos.É literatura ou não é?

Macelo Rubens Paiva paRa ilustrada da folha, em 2 de dezembro de 2000


Escrito por zesarmento às 13h55
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A BLITZ


Mãos pra cabeça, porra! orra orra orra...
Encostados na parede, caralho! alho alho alho...
Isso é uma blits, tá ligado! gado gado gado...

Faltando finesse e educação peculiar a quem é gente porque fala a linguagem dos urbanóids, ecos explodem nos ouvidos dos suspeitos, vindos de quem nessas horas passa a ser bicho na arrogância de alguém que demanda algum poder.
Não tem um devedor ou não da justiça que não pare de pronto e se entregue as mãos ácidas das autoridade de plantão nas ruas da periferia. Na hora exata vem a calhar e bater de frente a arrogância dos que têm poder momentâneo frente à àqueles que não têm de onde tirar algum poder, só o de, por enquanto, está solto nas ruas.
Após o revirar dos bolsos e peças do carro, se for encontrado algum produto de roubo, lhe faltará a liberdade das pernas que o transporta por onde quer para as correrias ditadas pelo regime recrudescido de alguma arma que vomita bala.

Te vira de frente e olha pra mim sem abaixar as mãos, só quando eu mandar, tá ligado!

Carros viaturas da policia fardada ou civil, quando das perseguições pelas ruas estreitas da periferia encena teatro ao ar livre; acontecimentos diários para os atores envolvidos nos espetáculos quando o pau começa romper os limites do bom senso. Atores perseguidos e perseguidores deliciam a platéia. A maior parte da visão é concebida através do retângulo das janelas semi-abertas ou com o corpo a metade para fora, imitando os agentes de segurança das viaturas.

Têm uns que não encaram o medo como acontecimento superior que o faça desistir de assistir a peça encenada com a possibilidade de ser trágica ou cômica.

Pode baixar os braços sem movimento que faça parecer que quer me acertar a traição, porra!

Os carros perseguidos geralmente são os carros esportivos, se não são vindos das fábricas da forma como se encontram, os boys de classes pertencentes a c e d, deixam assim os usados, passando motivo de serem os mais excomungados para as revistas suspeitas. Querem saber de onde vêem, para onde vão. Saber dos enquadrados pelas pontas das armas dirigidas a qualquer parte do corpo, bem mais a mortal, se quem for parado diligenciar, como conseguiram a caranga, se na mão grande como fazem os “vida loka” ou com algum trabalho lícito.

Espero que não teja devendo nada, nem você nem o carro, senão a casa cai!

Entendi sim senhor...
Que humildade do suposto bandido frente a arrogância da autoridade.Lição passada pelo professor deve levar para as correrias, quando se depara com a vítima, agindo de mesmo modo.

A maior parte já se acostumou com as paradas em suspeição dos policiais da área. Para os conhecidos que puxaram cadeia, as paradas são mais freqüentes que os não.
Parando-os e estando-o em dívida com a justiça, dali pode sair um salário extra, e se for coisa mais graúda, diversos salários extras têm que depender para não assinar b.o. que o comprometa a puxar mais uma cana e mais longa.

Nome, RG, Data de Nascimento, Filiação, Estado, Nacionalidade...
Tudo aqui, senhor...

A periferia se diverte nessas ocasiões, perdendo a audiência os canais comerciais de tv na hora que a platéia encontra com a cena de perseguição e averiguação ao vivo. Sabe-se que torcem alguns para as autoridades policiais, sabe-se que torcem outros para os suspeitos, posto ser verdade que muitos dos que abrem as janelas e põem a cabeça para o mundo, sobrevivem do trabalho do suspeito, por este ser trabalhador ou bandido.

Okei.Tudo bem.Confirmando. Negativo. Nada consta de passagem, tá limpo!

Dinheiro que é bom de algum lugar tem que aparecer, ninguém vive de vento, de luz, comendo e bebendo a natureza que a nós se apresenta como mãe principal, mas que não nos oferta se ficarmos em pé parado ou sentado vendo o bonde da história passar, ou o carnaval.

Faz o que da vida pra ter uma caranga dessa, meu?
Trabalho...
Em que trabalha?
Sou artista...
Artista de que?
De muitas criações...
Tá me tirando!

Parado o suspeito num canto com a arma apontada em direção a qualquer parte do corpo, qualquer movimento brusco que faça, com certeza receberá um balaço.
É chacoalhado feito fruta em liquidificador, o carro desmontado em busca de droga em todos os buracos que possua, feito linha de montagem de desmanche. Se encontrada, dali sairá negociação, ou de cara levado para o distrito. Quanto mais gente existir como testemunha ocular com visão privilegiada, mais rápido será deslocado, se não, em pouco tempo sairá ileso, depois de morrer com boa quantia e ficar vivinho da silva solto nas ruas pronto para novos lances onde o certo é acertar o gol retirando a bola das mãos do defensor.
Quanto maior o delito, mais caro será o déficit do suspeito, vindo o pagamento com o que possui na hora, salvo essa ressalva quando tem a má sorte de alguma câmera os filmar. Má sorte bem mais para a polícia que para o bandido. O bandido se filmado, ficará famoso, a polícia, se flagrada recebendo propina, ficará afamada como bandido oficial.

Tá liberado, tá ligado!

Refeito do susto o afortunado por ter sido passado a mão por todo percurso do corpo procurando arma, droga e objetos de possível delito, se é devedor os acompanha, se não, está livre para ir à luta, qualquer delas, desde aquela que lhe rende maior valia num só dia, ou aquela que lhe rende menor valia em 30, ou aquela que deixará os amigos e inimigos com dois sentimentos opostos. Os primeiros, com lembrança das boas, os segundos, com prazer de tê-lo morrido ou preso tarde por ter aprontado tanto pela área. Sendo assim a existência para quem está vivo produzindo de algum modo aquilo que quis produzir para seguir como destino único, ver que ninguém nasceu para agradar todos os lados que nos cerca, por uns querer se ater a boas prerrogativas, outros a más.
Sente deveras que cada um deve seguir seu caminho como desenhou na cachola que recebe informação para produção ou improdução.

Detido pelas algemas nos punhos, ou livre para sair a mil acelerando fundo mais uma vez como se estivesse sempre em perseguição a alguma coisa ou fugindo dela, tudo volta à normalidade, com as janelas correndo procurando cerrar a entrada de luz e encerrá-los em pequenos cômodos quem as fecha. No escurinho dos dias de apertados cômodos, é mais aprazível o sonho de um dia encontrar melhor sentido para a vida, tendo o aparelho de tv esnobando as imagens que fazem delirar um dia ser igual ao iluminado que vende o corpo, ou a fala, ou a imagem ou roupa ou só “recrame”.

O recém-averiguado e suspeito não andou um quarteirão, foi parado novamente. O carro de vidro fumê, passava até a quem não era da polícia, suspeita de que dele ia sair um próximo assalto, um seqüestro relâmpago, ou mais um morto a tiro dando bandeira para ser alvejado com facilidade.




Escrito por zesarmento às 16h24
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Num poeta não se bate nem com 1 flor


Como pode caros Srs.alguém ter a coragem de bater num velho poeta, alem de tudo Doutor.
Por minha cabeça não passa existir um ser vivente, capaz de tanta imponência.
Será que este sedutor da violência se exprime dono da verdade e usa a força do braço para disparar seu rancor? Ou será que não conhece a intimidade de um poeta, que cria estrofes nos versos para esquecer certas dores?

Pelo jeito parece ser este um canastrão, gente que não sabe tirar de letra, profundas discussões filosóficas.

Daqui do meu lugar, quase cai da cadeira, e olha tão longe me encontro da Cidade Sorriso, terra que me viu partir chorando intimamente à quase trinta anos.

Descobri trabalhando nas vazantes irrigadas do perímetro de São Gonçalo, tomando banho no açude de mesmo nome, que São Paulo era meu lugar.


Escrito por zesarmento às 18h22
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PARA UM FUTURO NÚMERO 10

(Olhar intrigado e crítico de um pai vendo o filho participando de uma peneira)


Do meu canto fora das quatro linhas de jogo, com dedos de garra segurando o alambrado, fico torcendo que a bola tome chá de asa de beija-flor, que engula pelo lugar que lhe enfiam o bico para não ser a bola murcha da vez, suco de óleo lubrificante de avião supersônico, para quando receber os pés que a acaricia com mira certeira, vá de encontro ao que quis o seu admirador com a velocidade de jato.

Fico torcendo, torcendo, mas infelizmente vejo que não acontece o que peço intimamente. Os chutes em quase todos os lances saem mascados, mesmo tendo o dono das pernas, o tamanho das do tuiuiú e, tendo feito força suficiente para por abaixo uma parede de tijolos nus.
Rapa-Bosta, falam uns. Perna de pau, dizem outros tantos adjetivos compostos mais. Oralmente falo do meu lugar de solidão sem que ninguém perceba o movimento da minha boca, pois estou ligado torcendo por alguém que sou eu, torcendo por quando a bola chegar nele, faça jogada de um Pelé.

Depois de duas ou três intervenções, percebo que é alguém que não nasceu para dar afago de bom amante à pelota e, em cada jogada que os bons de bola fazem, vão o afastando mais da redonda, o deixando de lado, esfriando o seu furor em querer mostrar que também é bom boleiro, pois é publico e notório fazer jus a frase antiga: a bola procura sempre os craques.

De múltiplos pés juntados aos dois de mim mesmo, vejo-a partir a bola girando inibida e sem direção, seguindo em trajetória de extensa curva para qualquer canto do campo, menos para o objetivo principal: o gol ou os pés de quem a solicitou e que joga bem.
Bola sem direção essa que vejo, saindo-a de 90% dos pés que correm feito animal em fúria em busca de alimento, mas que não nasceram para encontrá-lo no melhor pasto das quatro linhas do campo de futebol.

Do meu canto de solidão e sonho, sinto certa inveja no rosto de quem tem filho que chuta bola certeira, por ver que de alguns pés em menor grau de desenvoltura, à pelota age com a naturalidade dos monges budistas endereçada ao passe ou ao gol e, com a sutileza de um apaixonado, cai nos pés de quem a admira e sabe direcioná-la nos passes e dribles ligeiros para fugir dos pés de carrascos concorrentes.

Como sou egoísta de não ter olhos para as bolas que saem de outros pés, moldados sobre a dinâmica do gênio da natureza que detém o poder de fazer um craque de bola nascer.
Tão poucos sabem fazer da bola seu brinquedo de raro algum volante ou zagueiro roubá-la na facilidade. Bonito é vê-la a quem sabe tocá-la com a sutileza dos Robinhos de hoje, se é que tem mais de um como ele e, ela sair girando no próprio eixo, deslizando no tapete da perfeição, dando dificuldade ao goleiro em espalmá-la ou encaixá-la retirando-a da trajetória da rede.

Bolas que partem de pés de gênio assim, fazem que o goleiro maldiga o atacante, que com certeza é moleque que soube namorá-la desde a infância, a visualizá-la entrando entre a trave e o goleiro, ali, naquele lugar onde a coruja faz o ninho, na junção dos dois ferros que formam ângulo de noventa graus, e assiste depois do chute, ela ir lentamente ou velozmente no lugar escolhido pela visão do craque que tem visão panorâmica de toda área do campo.

Bonito mesmo é ver moleque bom de bola, que quase sempre nos seus chutes ao gol, faz o goleiro beijar o tapete verde do gramado e se contorcer em dores de remorsos, tentando lentamente se levantar, ouvindo gritos de alegria da torcida adversária, chegando aos ouvidos, ensurdecedores uivos de vais da torcida caseira.

Como sou egoísta em não ver o filho do pai que está ao lado se contorcendo de alegria nos gestos de braços e pernas, vendo o filho que sabe tudo de bola, tocá-la com suavidade, sem esforço, sem a maltratar, nem a ele o físico.
Como sou egoísta em ver só o meu filho tentando ampará-la entre as pernas, no peito, na coxa, chutá-la de cabeça e a dona de todas as glorias do futebol se insubordinar e não querê-lo para si.

Esse a quem invejo “numa boa”, porque o futebol é a arte de quem não sabe enganar, tem destino garantido num grande clube espalhado pelo mundo, terá o numero 10 nas costas, levando a responsabilidade de dá continuidade a arte do futebol clássico, onde não só a força física é parâmetro para as conquistas.

Falo com alguém ao lado que na certa é pai de algum moleque da avaliação. Esse tá garantido. Vai ser o craque de qualquer time grande. Do Brasil, do exterior, do futebol arte.
Do meu canto me vejo o assistindo e torcendo por ele, não mais pelo meu, esse não tem jeito, porque sei que o futebol, o craque de bola, o diferenciado, merece aplauso, por não ser mais um entre os onze para completar a escalação.

José Marques Sarmento



Escrito por zesarmento às 13h23
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O TIRO NÃO ERA PÁRATI

Fora alvejado por ser um dos sentados à mesa do boteco tomando a milionésima cerveja da sua vida, achando que se debruçando sobre os copos da dourada espumenta discutindo os males da política para a cultura, da crise no futebol e uma serie de outras conversas de botequim, estava fazendo sua parte para o se levantar da cultura brasileira.
Muitos intelectuais que não têm saco para as conversas de botequim e que têm muito que fazer, acham que “os caras” se juntam para receber cafunés elogiosos uns dos outros em carências de criação e afago de mão, para saber o que um e outro está escrevendo e um pegar a copiar o outro para mais a frente darem uma tendência especulativa e um nome de geração não sei das quantas.
No entendimento de alguns, são pessoas carentes de assédio, que primam em se fazer conhecidos pelos seus escritos, usando a técnica da criação para se expressar por terem feito muitos cursos e ouvidos palestras de poetas e escritores de como escrever qualquer assunto que lhe paire sobre a telha, e não ter dentro de si um escritor nato, daquele que vem da gema dos melhores na criação literária.

O alvo não era o escritor, era o editor.

Na verdade os interessados em descobrir o assassino não sabem ao certo se o homicida queria alvejar o escritor. Especulam se o homicida também não queria que a bala entrasse no peito do editor, como achou de pegar no do escritor, rasgando o que encontrava pela frente, saindo por trás levando parte de algumas vértebras deixando um rombo de mais dez centímetros e pedaços do corpo esmigalhados e um vácuo no intelecto criativo do contemporâneo.
Pela posição que se encontrava o homem de muitos poderes e que a maioria dos escritores novos bajulam tentando que o cara dê atenção a sua obra, certificam os especialistas em balística e investigação de crimes dessa monta, que a bala era para fazer destroços em dobro, pelo fato de ser de arma potente e o escritor que fora morto, está no lugar errado na hora errada.
Comentam os especuladores e formadores de noticias plantadas, de que era bala única a que tinha a arma do atirador, por ser o cara um pobre miserento revoltado e desgraçado que trabalhou mais de dez anos escrevendo uma obra literária, e quando pronta, indo procurar o editor, esse queria saber o que fazia, se era parte componente de alguma tribo, de alguma panela importante da mídia, se tinha parente na política, no magistrado nacional, seja admirável para umas coroas com poder de decisão a respeito de pôr sua obra em fila para averiguação daqui uns anos.

Veja o que sucedeu dias antes e de as suspeitas recaírem sobre o escritor em busca de editor.

Cadê a carta de apresentação, escritor?
Que carta?
Sei lá, alguma coisa escrita pelo João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos...
Não tenho nada, doutor, só esse trabalho de dez anos entre pesquisa e escrita.
Quantas páginas?
Umas 60/70.
Peraí meu, que porra de escritor é você que demora dez anos pra escrever um livro que só chega a 60 páginas?
Bom... é que o assunto é complicado...e dizem que livro grosso não vende, que as pessoas não têm mais tempo pra ler texto longo...mas o livro é bom, doutor!
Bom pra que bem-te-vi?... só se for pra você e tua panela que não deve passar de seis pessoas!
Mas como o doutor pode falar que meu livro não presta se dele só leu o titulo?
Meu, olha aqui, pára de idiotice! A partir do momento que você não trouxe uma apresentação do escritor que perguntei ou de algum outro que tenha a fama de vender novos escritores...sei lá, pode ser até dos estrangeiros que já foram, uma carta psicografada que for, do Franz Kafka, Hermann Hesse, Albert Camus...sei lá, de alguma criatura qualquer, mais que tenha acesso as várias mídias.Sinceramente... Poço ter a liberdade de te falar uma coisa?
Se o doutor acha que pode e deve, deve.
Então, meu escritor, não dá sem a apresentação nem que seja duma gostoso da tv pelo menos...Entenda escritor, com a apresentação duma pessoa assim, seu livro poder não valer nada, pode ser que sirva só pra levantar labareda de lareira. Não dá. Eu não vou editar livro pra ocupar estante virado de lado, onde o leitor só ver a grossura do livro, livro que só quem sabe que ele existe é o autor.
Mas, “Senhor” são dez anos de minha vida aí nessas páginas.
Quer saber... Essa conversa tá me enchendo o saco e eu tenho mais o que fazer! Tá vendo aquela ali...você a ver pelo vidro?
Sim, vejo!
Ela foi à reunião na minha casa ontem à noite com bela apresentação. Digo isso com conhecimento de causa, cara, essa menina novinha na cama é um avião supersônico, daqueles que aterrisam no corpo fálico de um homem e o faz viajar as estrelas. Como escreve essa menina, e olha, tem um futuro dos diabos! Veja, é uma bela obra ou não é o que a natureza fez com ela?
Parecer ser doutor, mas duvido que a obra dela tenha mais profundeza semântica e aglutinação de nova linguagem que a minha.
Ah, se tem! Aquilo ali com a língua é uma coisa dos infernos. A linguagem que a língua daquela menina inventa é coisa dos deuses dos antigos impérios. É de arrancar suspiro a quem entra no interior de suas páginas intrínsecas, e nunca mais quer deixar de estudá-la. Quer saber, escritor, você com essa cara de perdedor, vai ter que sair da minha frente ainda como um, porque não sou eu que vai te tirar da merda e te pôr sob as luzes dos holofotes, ta!

Vendo o banheiro desocupar-se se levantou e escapou ao dirigir-se para tirar água do joelho deixando o copo ainda cheio transbordando bastante espuma caindo pelas bordas sobre a mesa.
Pela parte do atirador e pelo posicionamento da mira que fazia para alvejá-lo, não encontrou tempo de abortar o disparo, o chumbo já se encontrava saindo da câmara quando o alvo se mexeu, deixando como lugar para se alojar o peito do escritor logo atrás, que a recebeu dando gargalhadas por ter assinado contrato dias antes para edição de novo livro. Livro que ia ser o máximo para ambas as partes, ia deixar o escritor reconhecido e lhe render grana preta com as vendas, e ia deixar ainda mais a editora conhecida tanto aqui como lá fora.
Andava o editor namorando o escritor há muitos anos a fim de ser o escolhido por ele para a edição do novo romance.
Leva de vários escritores sem respaldo ainda das grandes editoras tentavam a sua atenção, por outro lado o editor tentava a atenção de grandes escritores, nomes de renome para trazê-los a sua editora.

Se a coisa realmente aconteceu como especulam e dizem ser o assassino um escritor frustrado, ficou em sua trajetória criativa outra grande frustração, por ter alvejado alguém que ele achava que não devia morrer, pois que um dia fora como ele é hoje, e devia viver, por, a partir desse contrato com uma grande editora, receber os louros da vitória.
Que pena!

José Marques Sarmento





Escrito por zesarmento às 13h32
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