AINDA NO CÉU
Bendito seja o nome do Senhor Rapadura dura tem um pouco com farinha ainda Raspada comadre só pra quem não tem dente como nós muitas Entrada da noite besuntava saliva de beiço pão caseiro sequilho e alfenins e cuscuz amanteigado ao coco ralado e doces que adocicava quem estava no amargor fragor da desordem da fome tendo a fé mais que alimentando rara comida faltante e a cara da santa mãe de muitos rebentos reclamando de ano ruim pras coisas que mantêm a laje dos pés em pé Minha filha que a Santa imagem de nosso São Gonçalo traga a fé de bem bom ano de inverno O que se foi já passou e é bom de se esquecer Ele não aqueceu em nós o agasalhar da fartura Faltura de tudo é o que trouxe balançando coisa ruim na bandeja da infelicidade Não vê que tá todo mundo magro e arrasta parecer esqueleto os filhos pelo oitão da casa Mastigaram o ano todo vento por esse tempo mulher depois de comer do chiqueiro os porcos galinhas e restos de perus que sobraram dos anos bondosos de chuva Passarim desapareceu das lagoas e brejos de capim verde socós e galinhas d’água e marrecos não apareceram pra dá as vistas o desatar nó da insatisfação então pro modo não morrer de inanição foi apreciso comer os bichos do quintal não sobrando pra nova cria nenhuma muda Muito mal esse tempo comadre Zefa Maria Espero que o Santo amelhore de hoje em diante e faça parar de esticar o sofrimento da gente Rapazotes afoitos afastados dos crentes e parentes andando pelas beiras não paravam de mexer no que tinha de melhor que mexer das meninas a mira do olhar em combinação de se encontrarem mais dias menos dias por isso de aparecer tantas novas crias pelo sertão dos então coronéis senhores donos de vastas terras Era a fome de juventude dando imaginação para a procriação a todo aquele que ainda tinha resistência para se erguer das cinzas como a fênix e revigorar o entusiasmo por sob os beijos das moças que fazia o diabo para se por em encontrar um nubente mesmo sabendo que a partir daquele momento ia ser os dias pra si mais duros e diferentes Queriam sair do caritó a qualquer custo mesmo se continuasse seco e claro do sol do estio o tempo do sertanejo Sabiam todos que as meninas sem homens não ficavam E os marmanjos idem sem mulher no cio sem o vício do toque de mãos de mulher parideira sem ver crescer a barriga ano a não sem por nem tirar Era rebento a dar com pau em qualquer das famílias arrebentando as mães que se achavam mães milagrosas por parir um filho atrás do outro depois de crescido e virado rapagão ou mesmo antes disso meninão batia pai na cabeça vendo a mãe pelos cantos de pirraça mas sonhando com a partida do filho Vai pra Sum Paulo trabalhar no metrô Todo ano minha Nossa Senhora vixe maria mãe do céu corria o perímetro recebendo as casas católicas Santo pai dos aflitos Olhava piedosa pra rosto carente de alguém querendo virar gente sabendo que depois da morte poderia virar santa igual a que andava no andor seguro por rudes mãos sobraçando esperança na imagem por ser todos pessoas sofredoras Deus lá de riba não tirava os olhos faísca de luz tendo o sol como patrono do tempo alumiando esperança de ano melhor vindouro surgir Cânticos nas noites clareavam velas acesas por chama divina caminhozinho estreito estreito como eram as vista até onde ela alcançava Só quando a lua dava as caras melhor seria enxergar rosto de menina querendo namorico com menino que sondava o mesmo querer pelos peitos que batia renitente Quando não dava de pegar na mão no lusco fusco do dia indo de encontro à noite pegava a sonhar deitado em rede balançado balançando no gemer do ferro fazendo barulho de cigarra
Escrito por zesarmento às 16h10
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